sábado, 25 de junho de 2011

Música: O seu amor" comentada por Roberto Freire


Bethânea, Caetano, Gal e Gil


"O seu amor,

Ame-o e deixe-o
livre para amar"
Gilberto Gil

"Nestes primeiros versos, o poeta reagia de modo irônico e esperto à estúpida campanha do governo militar ( Brasil, ame-o ou deixe-o ) durante as décadas de 60 e 70, dirigida contra aqueles que denunciavam, contestavam a ditadura facista por eles implantada em nosso país. Cinicamente, os militarem identificavam-se ao Brasil e dirigiam-se a nós, que queríamos e amávamos outro Brasil, propondo essa ridícula opção que, se não a fizéssemos por bem, eles nos obrigariam a fazer por mal, como, aliás, à nossa revelia, acabaram por fazer através de prisões, do degredo, da tortura, do assassínio. Gil vai muito além da ironia e faz a devida e definitiva crítica: amar não é ou, amar é e. Deixar não é afastar, é facilitar. E amor, só livre." (Freire, p. 40)

E amor, só livre?

Para tentar explicar essa afirmação pincelo aqui um pouco de Roberto Freire.

Para o psiquiatra e escritor libertário é preciso, antes de tudo, amar a possibilidade de amar, pois, em seu anarquismo somático, isso significa amar em liberdade e para ele essa é a única forma de amor possível. Ou seja, é preciso eliminar o conteúdo autoritário dessa relação e garantir a quem amamos a liberdade de amar além e apesar de nós e de nosso amor. É preciso amar mais a possibilidade de amar que o próprio amor e os nossos objetos de amor. Devemos assim amar o nosso amor independetemente dx(s) outrx(s). Ele lembra, entretanto que os males do amor não são problemas individuais e restritos:

"Sei que a dificuldade para a realização plena do amor entre as pessoas não é um problema do amor em sí, mas do ambiente social, dos preconceitos, do moralismo laico ou religioso, do autoritarismo, da luta de classes, dos interesses econômicos e políticos.” (Freire, p. 29)

Acho belo pensar sob o amor sob esta ótica. Não se trata de "libertinagem" e sim de liberdade. Que nosso amor esteja cheio de vida e cor, que seja voluntário e desejado. Livre de coerções morais, econômicas, políticas ou sociais. O seu amor, ame-o e deixe-o ir aonde quiser.

Fonte: Roberto Freire - Ame e dê vexâme. Ed. Guanabara Koogan S.A. - 1990.

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